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A retórica da imagem fotográfica e a pós-modernidade

liminaridade, cumplicidade e crítica
Ana Gabriela Macedo


A obra de Sherman é, sem dúvida desconcertante e perturbadora, particularmente nos trabalhos mais recentes, as suas versões dos contos de fadas, encomendados pela revista "Vanity Fair", ou as suas refigurações eróticas. As imagens da mulher que produz nunca são imagens "positivas" onde se busca a "verdadeira identidade" ou subjectividade da mulher. Longe já do Feminismo dos anos 60 e inícios de 70, Sherman apresenta imagens onde a máscara e o travestimento são eles próprios exibidos enquanto tropos fundamentais, significando que "não há imagens verdadeiras/autênticas," e que a identidade é produzida através da própria representação. Tal como B. Kruger ou J. Holzer, Sherman analisa o modo como a significação e a identidade é produzida num mundo "saturado de imagens" , assim como as relações de poder que essas mesmas imagens traduzem e mascaram. [...]

A fotografia pós-moderna apropria-se da realidade e transforma-a não em imagens "inocentes" ou visões transparentes, mas em re-presentações ou re-visões do real e dos constructos ideológicos que lhe subjazem, constituindo assim, tal como afirma Linda Hutcheon "a challenge to culture from within" [Linda Hutcheon, "Fringe Interference: Postmodern Border Tensions" (Style, vol. 22, nº 2, Summer 1988), xiii].

É nesse sentido que, tal como Susan Sontag escreve, "a fotografia documenta e justifica, mas simultaneamente também aprisiona e falsifica o tempo; é uma submissão e um assalto à realidade; é um meio de apropriação da realidade, assim como um meio de a tornar obsoleta" [Susan Sontag, On Photography (London: Penguin, 1977), p.179]. Do mesmo modo que falamos de reescrita pós-moderna de mitos ou da História através da descodificação paródica, do pastiche irónico ou do palimpsesto, também estas combinações e sobreposições de texto/imagem são deliberadas e provocatórias re-visões de mensagens culturais supostamente inocentes e transparentes. [...]

No caso das três fotógrafas citadas, poderemos dizer que a sua obra constitui o que se poderá chamar uma genuina "politics of location," na formulação de Rosi Braidotti [Rosi Braidotti, Nomadic Subjects. Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory (N.Y.: Columbia U. P, 1994), p. 21-22], significando, por um lado, a sua cumplicidade com um tempo e um espaço social claramente referenciados e, por outro lado, o seu existir nessa tensão paradoxal que aqui pretendemos discutir, ao representar realidades e traduzir mundos que de modo algum mimetiza, mas antes criticamente distorce, desloca e finalmente interroga.






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