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em Miguel Torga e Unamuno Luís Martins Fernandes
As temáticas da identidade e da alteridade estão indissociavelmente ligadas, não só porque a individualidade irredutível de cada sujeito se constrói no confronto dialéctico com os outros, mas também porque, paradoxalmente, cada homem se afirma como pluralidade dialógica. Esta multiplicidade dialogante intrínseca ao eu é o objecto de estudo das obras sugestivamente intituladas Je est un autre (Lejeune, 1990) e Soi-même comme un autre (Ricoeur, 1990).
Na destrinça das identidades unamuniana e torguiana, privilegiaremos a instância do “estranho” como delimitadora e reveladora do “próprio”. Estamos na presença de escritores que assumem toda a sua produção como autobiográfica, de acordo com as citações em epígrafe. E o corpus deste estudo ou é constituído por textos canonicamente autobiográficos – como o são o Diário e A Criação do Mundo de Miguel Torga –, ou envolve produções catalogadas em “géneros literários de fronteira”, saturados de conteúdos autobiográficos – como a correspondência de Unamuno com portugueses e as crónicas das suas viagens a Portugal, na sua maioria reunidas no volume Por Terras de Portugal e Espanha. Aliás, a introspecção pura não se afigura a nenhum dos autores em estudo como a forma privilegiada de autoconhecimento, já que esconde ciladas enganadoras. A este respeito, opina Unamuno, no ensaio “El individualismo español”: “Aprendemos a conocernos lo mismo que aprendemos a conocer a los demás: observando nuestros actos...” (Unamuno, 1945: 433). Miguel Torga, que prefere dar atenção ao “quotidiano tangível” a mergulhar em “devassas introspectivas” (Torga, 1999b: 1454), aponta para a reciprocidade dialéctica das descobertas: “O homem só se descobre a descobrir” (Torga, 1999: 417).
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