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Memória da cidade destruída

Margarida Louro


Mnemósie ou Memória, segundo a teogonia de Hesíodo, é a deusa (Titã) filha do Céu e da Terra, que deu à luz as nove musas das artes. Estas musas, a princípio não se distinguiam umas das outras:

Um espírito comum [como afirma Hesíodo], de corações devotados à música, ao prazer e felicidade, libertos de cuidados, caracterizava estas musas engrinaldas de violetas, companheiras de Apolo, o deus da verdade, com quem partilhavam a lira diorada. (Hamilton 1991, 47-48)

Assim, aquele que fosse amado pelas musas era feliz, sendo esta a dádiva sagrada que concediam aos homens, sendo que todo o mortal por elas inspirado adquiria um carácter mais sagrado do que qualquer sacerdote. Com o decorrer dos tempos foram atribuídos a cada uma delas diferentes campos de inspiração: Clio era a musa da história, Urânia da astronomia, Melpómene da tragédia, Tália da comédia, Terpsícore da dança, Calíope da poesia épica, Érato da poesia amorosa, Polímnia das canções dedicadas aos deuses e Euterpe da poesia lírica. Esta ligação definida pelas artes não visuais facilmente se estendeu a outros domínios, sendo inaugurada pelo sentido mítico a relação entre a memória e a criação artística, assumindo-se a permanência da ideia da arte e do acto criativo como enraizados na memória, de que nada pode surgir sem recolha e retrospectiva.






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