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O Terramoto de 1755 e as suas implicações na organização da prática musical

na Capela Real e na Patriacal
Cristina Fernandes


Uma carta de um autor britânico não identificado, datada de 18 de Novembro de 1755, dá-nos o seguinte testemunho sobre o impacte do Terramoto nas duas principais infra-estruturas da prática musical na Lisboa de 1755 ligadas ao poder real, a Ópera do Tejo e a Patriarcal:

Daqui [do convento irlandês do Corpo Santo] dirigi-me à rua das traseiras que levava ao Paço, e que tem de um dos lados o estaleiro naval, mas encontrei a passagem que dá para a rua principal impedida pelas ruínas do Teatro da Ópera, um dos mais sólidos e magníficos edifícios do género em toda a Europa e recém-acabado de construir a um custo prodigioso [...] Verificando que este caminho estava impraticável, dirigi-me ao outro arco, que dava para a nova praça do Paço [Terreiro do Trigo], com menos de um oitavo do espaço da outra, da qual um dos lados era ocupado pela Patriarcal, que também servia de Capela Real, e outro por edifícios magníficos de arquitectura moderna, ainda não completamente terminados. Quanto à primeira, o telhado e parte da fachada tinham sido deitados abaixo, e no que respeita aos segundos, apesar da sua solidez, tinham sido tão sacudidos que várias pedras grandes tinham caído do cimo deles e todas as partes pareciam desconjuntadas. (Nozes 1990, 176).

Com a derrocada da efémera Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes do Terramato, caía também a efémera aposta de D. José I no espectáculo de ópera como estratégia de representação do poder régio. Um cenário típico noutras cortes absolutistas europeias, mas que em Portugal teria apenas a duração dos cinco anos que medeiam entre a morte de D. João V e o grande cataclismo. O Rei Magnânimo tinha preferido tirar partido das potencialidades teatrais do cerimonial religioso em proveito de uma imagem fortalecida do poder, uma orientação preterida pelo seu filho em favor do fausto operático, mas que voltaria a emergir no cenário pós-terramoto como a manifestação mais visível do absolutismo régio, no que diz respeito à arte musical.






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